Estou grávida. Depois de quase 8 anos de casamento, um aborto bem sofrido aos 2 meses de gravidez ano passado, e muita dúvida, estou grávida. É bem engraçado estar assim, pra não dizer assustador. A gente brinca de casinha quando é criança, faz bilu-bilu nos filhos dos amigos, mas saber que tem uma coisinha se formando dentro de você é no mínimo desconcertante. Pelo menos pra mim. Bem, deixa eu tentar me explicar.
Eu sempre gostei bastante da minha profissão e de liberdade. Ah, a liberdade de viajar com o marido a hora que se quer e sem deixar ninguém porteira atrás. A liberdade de ficar horas a mais no escritório tendo que lidar somente com o biquinho do marido quando se chega em casa. A Liberdade com "L" maiúsculo de passar o dia na cama comendo besteira e assistindo filme. Liberdade de comprar qualquer devaneio e dividir em 10 vezes. Afinal de contas, somos só eu e ele.
E agora? Agora muda tudo. A coisa toda muda de figura. Aliás, as pessoas sempre fizeram questão de deixar bem claro pra mim que filho muda tudo. Mal sabiam elas que me dando esses conselhos, estavam me deixando mais apavorada com a idéia de ter uma extensão de mim mesma. "Nossa, como você viaja, né? Aproveita enquanto não tem filhos" . "Sua barriga é chapadinha, aposto que não tem filhos. Depois que tiver, você me conta como vai ficar". Às vezes me pergunto se não são puro mau agouro travestidos de conselhos.
Quando minha mãe estava com raiva e cansada, o que hoje eu entendo perfeitamente, afinal de contas ela trabalhava fora, não tinha ajudante em casa e muitos menos babá e tinha que dar conta de quatro meninas, ela repetia "ser mãe é padecer no paraíso". Aliás, essa frase é praticamente um mantra repetido por quase todas as mães ao redor do planeta.
Outra cena que que me marcou demais foi quando minha irmã mais velha teve gêmeos. Eu, ainda criança, não sabia se achava aquilo bonitinho ou se ficava apavorada. Ela ria e chorava com a mesma intensidade. Dava de mamar a um e sorria aliviada, começava a amamentar o outro e chorava de cansaço.
Juro que eu adoraria ser daquelas que dizem terem nascido para serem mães. Nossa, tantas questões existenciais resolvidas em apenas 9 meses. Lindo isso. Mas eu não sou assim. Aliás, acho que por isso mesmo empurrei a maternidade o quanto pude, até que o relógio biológico bateu e meu marido igualmente buzinou no meu ouvido. Um complô da natureza, para ser mais exata. Então, fui correndo à psicóloga que, por ironia do destino ou providência divina, é simplesmente apaixonada pelo ofício de ser mãe.
Pois é, já estou com praticamente 3 meses de gestação. Se já me sinto no paraíso? Confesso que de vez em quando sim. É mágico ver aquele serzinho de pouquíssimos centímetros mexer os bracinhos e as perninhas. E o coração? Esse bate tão forte, mas tão forte, como se quisesse demarcar território.
Agora, a parte do padecer só vou poder responder a daqui um tempo. 6 meses para ser mais exata. E prometo que volto pra contar, seja pra desmistificar esse assunto ou pra botar ainda mais lenha na fogueira.